Acordo espantalho!
Porém, quem arrancou-me as vísceras
[com gestos apressados e unhas longas]
ao empalhar-me, esqueceu-se de retirar-me o cérebro.
Eu enlouqueci na imobilidade de sentir
e não ter músculos para mexer.
[O grito saiu entrecortado,
como se minha boca tivesse
sido alinhavada às pressas]
E eu só queria alguém,
um colo,
dedos entranhados em meus cabelos.
Um carinho,
uma preocupação...
... e não havia nada,
nem mesmo quando abri os olhos
e uma fresta de luz quase me cega a retina.
[Tenho vivido de tão pouco!
Lembranças, quase sempre...
...de uma chave perdida em algum canto da memória]
Ah, essa melancolia que me aperta o peito sem coração,
ainda batendo em oco.
Ah, essa ausência de não sei o que,
insistindo em fazer-se presença em minha carne.
Ah, esse tempo, que me imobiliza em branco,
braços cruzados à força, lentas horas!
O soro pinga em uma lentidão medonha...
...o remédio vem, mesmo se eu não quero...
...e o sono, de dias inteiros;
doem-me as costas,
posição que não posiciona...
...sou um cadáver!
[Agora, o frio de uma sala inerte
invade a minha alma...
...sou mais nada]
[maio/2010
Publicado no Recanto das Letras em 12/05/2010
Código do texto: T2252505]
MENDONÇA, Silvia - Mural dos Escritores - URL: http://muraldosescritores.ning.com/profiles/blogs/sou-mais-nada-1- 10/08/2010
